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um brinde à ausência.

meu navio está partindo agora.
se partindo ao meio, sem nunca ter deixado as docas.

seu casco cai, atracado no cais do porto, desgastado em ferrugem pelo tempo, agora sangra em pó de ferro e se desfaz em finas partículas que tingem o oceano. o oceano que costumava ser azul, agora é vermelho.

meu dever seria afundar com ele, deveria me jogar ao mar para submergirmos, mas creio que não valha a pena tamanho sacrifício por esse gigante que nem chegou a navegar. navegaríamos juntos. afundaríamos juntos.

observo seu inevitável fim.
aceno com a mão direita enquanto vejo lentamente o monstro de aço por mim construído, pelo tempo destruído, afundar na imensidão e no esquecimento.
aceno e olho a cena.
sei que não há nada mais para fazer agora, com a mão atada que diz adeus para a embarcação. a embarcação ancorada também não pode fazer nada para evitar seu destino.

mãos metálicas ancoradas.

aceno com saudade do que nunca aconteceu.
o champagne estragado, nunca usado em sua viagem inaugural, perdeu a efervescência e o frescor. prazos de validade, da bebida e do barco, agora expirados. expectativas apodrecidas, chardonnay estragada.

o barco afunda dentro da garrafa.

aceno com pesar.
sei que a culpa é minha por construir algo mais denso que a água, sobre a água. sei que me equivoquei ao pensar que uma liga metálica seria mais resistente que as simples moléculas desse líquido. eu sei, erroneamente subestimei a água e sua influência química.

seria diferente se o mar fosse um vinho espumante?
não bebi do vinho azedado, mas sinto como houvesse um mar em plena tormenta dentro de mim. as áreas portuárias me causam forte enjôo.
despedidas me causam náuseas.

meu navio desaparece aos poucos no mar.
água mole, casca dura. tanto bate até que fura.
retalhos de metal espalhados pela orla.
casco amolecido.
o adeus é que é duro.

silêncio debaixo d’água quebrado pela cortiça rasgando o céu.
brindemos, eu.

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