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café solúvel.

uma nova dor noturna, semelhante àquela que me levou a tentativas de nunca mais dormir, mas menos espessa dessa vez. dissoluto onírico, antes consistente, se dissolveu no simulacro real, nessa realidade tão dissimulada, tão insossa e tão diluída quanto café sintético.

sonhei de novo.

sonhei amargo, mas sem gosto. sonhei, e de novo amanheceu com café, mas sem borra, e sem noites irreais fragmentadas em cacos rubros de porcelana vazia, escorrida pela negra manhã. sobrou-me apenas a água turva de pó solúvel e o amargo diluído, que alude à perda do paladar. insensibilidade sensorial que se estende, da língua para todas as extremidades epiteliais do corpo. cicatrizes irreversíveis de borra, em chamas, que deixaram a pele morta. a manhã é morna e estar acordado pouco importa.

costumávamos dizer que sonhos só são memoráveis quando são extremos e substanciais, mesmo que excessivamente amargos. costumava me utilizar da cafeína para permanecer em vigília, livre de alucinações reais em sonhos indissolúveis. o ardor da dor se dissipou na sobreposição das calosidades, decorrentes do descuido. os sonhos não possuem mais gosto algum quando caem sobre a pele, nem resíduos escuros que escaldam ao mínimo toque.

sobra-me a realidade, uma água suja.

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