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imersão.

dispersos e indiferentes, sem saber qual direção, não veem o raio verde submergir em um mar de gente distante. então ocorrem novamente afogamentos, e os mesmos naufrágios de antes, de sempre, para que eu me perca só, mais uma vez. só mais uma vez em uma multidão vazia, imerso em uma imensidão de camadas flutuantes. ondas luminosas sobrepostas que vem e recuam. e se vão, se perdem na estiagem, levando projetos de viagem para o fundo, para sempre. projetos em vão. afundo no seco, no vão vazio do banco da estação, com meus muitos planos não concretizados e viagens sem ida. o verão de partida me vê acabar como um raio sem cor em imersão.

delphine.

não sei fazer planos de viagem, mas vou. repleto de expectativa e incertezas, sem bússola, sem hora e local. um anseio imóvel em trilhos sem para onde, receio. você não é só férias, e aonde nunca realmente importou enquanto você estava lá. você foi e voltou sem volta. eu espero, sem desespero, o próximo trem. sem planos ou hora, sem saber se ainda. e se ainda te vir nessa estação, você tão imprevisível com todos os seus planos de incertezas, vagando em um outro vagão, aposto que é somente acaso. talvez improvisaríamos com descaso um breve e imprevisto adeus de verão. você é uma viagem de mais de um verão, sem ida. eu, partido de partidas, vou, mas te espero vagando pelas estações, por todos os verões tão vagos de você. não vou fazer planos de viagem, mas me vou. e quem sabe, em alguma dessas todas estações, poderemos ver le rayon vert submergindo, sem verões, praias ou afogamentos.

fim do oito sem fim.

a última elipse do oito, um resíduo minguante de duas luas cheias, gêmeas siamesas. uma única luz tímida neste quase sempre céu negro, salpicado de pó de cinza. à espera de estrelas de artifício eclodirem, seria difícil não notar o reluzente arco solitário se reduzindo, predizendo o nove, novo, que está por vir. o porvir parece imperfeito e incompleto. o nove assimétrico, com uma ponta que amedronta; uma afronta ao oito. oito infinito que hoje chega ao fim. um ano que girou em torno de órbitas com eixos deslocados, no qual o céu foi partido em oito partes diferentes para que pudéssemos ver que, lá de cima, existem mais estrelas espalhadas pelo chão do que podíamos imaginar. estrelas colossais que irradiam mais intensamente do que qualquer outra. estrelas palpáveis que jamais irão estar em minhas mãos, mas se encaixam perfeitamente em uma centelha do olhar. tivemos todas e nenhuma para comemorar. mas tivemos o que comemorar. e depois de tantas reviravoltas ao percorrer as duas circunfer...

um brinde com taças de areia.
(ou a mão que abre mão de acenar)

o mar colide em meus pés. traz na secura da maré alta, os vestígios da ausência oxidada. inconsistente aço enferrujado. últimas gotas espumantes de gosto férrico. que levam nossos nomes até o horizonte, intangível. mãos vagas percorrem cascos de navios naufragados. os cacos de areia perfuram os pés. embarcações, que de tanto se perderem nesse imenso mar. fizeram-me notar que já eramos náufragos, mesmo antes de navegar. ninguém a bordo. brindemos à viagem inaugural, sem navios. com inconsistentes taças submersas na areia. que nunca transbordam. o mar recua no vidro arenoso. a terra é firme, eu não.

café solúvel.

uma nova dor noturna, semelhante àquela que me levou a tentativas de nunca mais dormir, mas menos espessa dessa vez. dissoluto onírico, antes consistente, se dissolveu no simulacro real, nessa realidade tão dissimulada, tão insossa e tão diluída quanto café sintético. sonhei de novo. sonhei amargo, mas sem gosto. sonhei, e de novo amanheceu com café, mas sem borra, e sem noites irreais fragmentadas em cacos rubros de porcelana vazia, escorrida pela negra manhã. sobrou-me apenas a água turva de pó solúvel e o amargo diluído, que alude à perda do paladar. insensibilidade sensorial que se estende, da língua para todas as extremidades epiteliais do corpo. cicatrizes irreversíveis de borra, em chamas, que deixaram a pele morta. a manhã é morna e estar acordado pouco importa. costumávamos dizer que sonhos só são memoráveis quando são extremos e substanciais, mesmo que excessivamente amargos. costumava me utilizar da cafeína para permanecer em vigília, livre de alucinações reais em sonhos ind...