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fim do oito sem fim.

a última elipse do oito, um resíduo minguante de duas luas cheias, gêmeas siamesas. uma única luz tímida neste quase sempre céu negro, salpicado de pó de cinza. à espera de estrelas de artifício eclodirem, seria difícil não notar o reluzente arco solitário se reduzindo, predizendo o nove, novo, que está por vir. o porvir parece imperfeito e incompleto. o nove assimétrico, com uma ponta que amedronta; uma afronta ao oito. oito infinito que hoje chega ao fim. um ano que girou em torno de órbitas com eixos deslocados, no qual o céu foi partido em oito partes diferentes para que pudéssemos ver que, lá de cima, existem mais estrelas espalhadas pelo chão do que podíamos imaginar. estrelas colossais que irradiam mais intensamente do que qualquer outra. estrelas palpáveis que jamais irão estar em minhas mãos, mas se encaixam perfeitamente em uma centelha do olhar. tivemos todas e nenhuma para comemorar. mas tivemos o que comemorar. e depois de tantas reviravoltas ao percorrer as duas circunfer...

um brinde com taças de areia.
(ou a mão que abre mão de acenar)

o mar colide em meus pés. traz na secura da maré alta, os vestígios da ausência oxidada. inconsistente aço enferrujado. últimas gotas espumantes de gosto férrico. que levam nossos nomes até o horizonte, intangível. mãos vagas percorrem cascos de navios naufragados. os cacos de areia perfuram os pés. embarcações, que de tanto se perderem nesse imenso mar. fizeram-me notar que já eramos náufragos, mesmo antes de navegar. ninguém a bordo. brindemos à viagem inaugural, sem navios. com inconsistentes taças submersas na areia. que nunca transbordam. o mar recua no vidro arenoso. a terra é firme, eu não.

café solúvel.

uma nova dor noturna, semelhante àquela que me levou a tentativas de nunca mais dormir, mas menos espessa dessa vez. dissoluto onírico, antes consistente, se dissolveu no simulacro real, nessa realidade tão dissimulada, tão insossa e tão diluída quanto café sintético. sonhei de novo. sonhei amargo, mas sem gosto. sonhei, e de novo amanheceu com café, mas sem borra, e sem noites irreais fragmentadas em cacos rubros de porcelana vazia, escorrida pela negra manhã. sobrou-me apenas a água turva de pó solúvel e o amargo diluído, que alude à perda do paladar. insensibilidade sensorial que se estende, da língua para todas as extremidades epiteliais do corpo. cicatrizes irreversíveis de borra, em chamas, que deixaram a pele morta. a manhã é morna e estar acordado pouco importa. costumávamos dizer que sonhos só são memoráveis quando são extremos e substanciais, mesmo que excessivamente amargos. costumava me utilizar da cafeína para permanecer em vigília, livre de alucinações reais em sonhos ind...

falando sobre fernando e augusta.

estavam sentados, frente a frente, àquela mesma mesa circular onde o sempre parecia passar tão rápido. o mundo que girava depressa ao redor deles não era tão maior que o diâmetro da mobília que os separava. se parados naquelas horas, que durariam o tempo necessário para que fossem as melhores horas de suas vidas, a distância pouco importava. eles estavam no topo daquela torre de babel que os rodeava, em extremidades opostas, mas ainda perto um do outro, o que não os impedia de falar. e falavam. ela falava com tenra nostalgia daquele antes, no qual seus amores gravados em rochas continentais nunca seriam afogados pela elevação do nível do mar. suspirava ao contrário, ao lembrar de desamores voláteis, lacrimejando com o vapor emanado que entrava em seus olhos. ela só queria fugir para algum lugar dentro de si e enfrentar a dificuldade do crescer sola e longe disso, mas perto daquilo tudo que estava bem diante dos seus olhos inundados. falava sobre se perder em lugares insólitos, para a...

oito sem fim.

o ano começa com fogos explodindo no céu da boca. com a procura de pontos luminescêntes no céu púrpura infinito. gotas de saliva pulverizadas. estrelas cadentes. estrelas decadentes. estrelas presas entre os dentes. o ano começa com fúria. o frenesi pelo novo. que seja infinitamente novo esse ano. com estrelas vorazes num céu de violetas que não se apaga. nunca.

borra.

de novo aconteceu a dor, o ardor do pó escuro, esquálido, recaindo sobre a pele. e talvez, dessa vez tenha sido mais doloroso ao imaginar, e mais verdadeiro do que quando fora realidade. foi? nunca acreditei naquela madrugada, nos passos lentos embriagados de pesar que se arrastavam por entre os carros e putas aceleradas, em que a chuva fina descia em lágrimas e encharcava a imitação persa no hall de entrada, enquanto eu esperava pelo elevador, elevando a dor, e levando a dor que não escoava. não acreditei nem mesmo na palidez da manhã seguinte, no café requentado quebrando jejum, na caneca, quebrada em mil pedaços no chão da cozinha, no som vermelho estilhaçado quebrando o silêncio e a palidez do domingo, na água suja escorrendo negra sobre a cerâmica do piso frio, por entre aquele eu fragmentado, reduzido a cacos. foi. e eu nunca quis acreditar. ou preferi não engolir aquele gélido líquido escuro, acreditando que, como nessa noite, tudo aquilo fora um sonho ruim, sumo de grãos apodre...