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borra.

de novo aconteceu a dor, o ardor do pó escuro, esquálido, recaindo sobre a pele. e talvez, dessa vez tenha sido mais doloroso ao imaginar, e mais verdadeiro do que quando fora realidade. foi? nunca acreditei naquela madrugada, nos passos lentos embriagados de pesar que se arrastavam por entre os carros e putas aceleradas, em que a chuva fina descia em lágrimas e encharcava a imitação persa no hall de entrada, enquanto eu esperava pelo elevador, elevando a dor, e levando a dor que não escoava. não acreditei nem mesmo na palidez da manhã seguinte, no café requentado quebrando jejum, na caneca, quebrada em mil pedaços no chão da cozinha, no som vermelho estilhaçado quebrando o silêncio e a palidez do domingo, na água suja escorrendo negra sobre a cerâmica do piso frio, por entre aquele eu fragmentado, reduzido a cacos. foi. e eu nunca quis acreditar. ou preferi não engolir aquele gélido líquido escuro, acreditando que, como nessa noite, tudo aquilo fora um sonho ruim, sumo de grãos apodre...

água desoxigenada.

submerso, me afogo na água doce. prendo a respiração e desço ao fundo. afundo. A água ("hidróxido de hidrogênio" ou "monóxido de di-hidrogênio" ou ainda "protóxido de hidrogênio") é uma substância líquida que parece incolor a olho nu em pequenas quantidades, inodora e insípida, essencial a todas as formas de vida, composta por hidrogênio e oxigênio. É uma substância abundante na Terra, cobrindo cerca de três quartos da superfície do planeta, encontrando-se principalmente nos oceanos e calota polares, mas também em outros locais em forma de nuvens, água de chuva, rios, aquíferos ou gelo. A fórmula química da água é H2O. falta o fôlego, não deveria ter mergulhado sem meu par de brânquias. mas odeio minhas fétidas guelras escamosas, e seu odor de peixe podre que me enoja ao tirar a característica inodora da água. meus pulmões não funcionam aqui embaixo, na superfície já não eram de grande eficiência. deficiência respiratória em ambos ecossistemas. déficit de ...

sinfonia inacabada dos pares de sapatos
(ou o infortúnio de se sapatear sobre rosas)

quarenta e três passos dados, compartilhados, em silêncio. os pés caminham sobre as rosas, os sons são abafados pela acústica floral. não é preciso um farfalhar de folhas secas para que a música seja ouvida, tenho ouvidos apurados, sensibilidade musical nos tendões. e um calcanhar de aquiles. a cada passo, o silêncio compassado desses passos me agrada. uma sinfonia muda de notas e pétalas pautadas em cadarços brancos. melodias são compostas. melodias silenciosas sobre rosas expostas, entreabertas ao chão. melodias sinuosas que se entrelaçam nos laços dos meus sapatos desamarrados. a noite muda. a noite é muda e grita. a música cessa sem calar-se. quem se cala são os pés, calejados. pé ante pé. perante os pés musicais que tocam notas semibreves em breves semi-olhares, a música é gritante e toma conta do ambiente sem rosas. não existe mais a suavidade melódica do silêncio, preenchido agora pelas folhas ríspidas e rígidas, a soar em caixas acústicas monofônicas. monossílabas pronunciadas ...

um brinde à ausência.

meu navio está partindo agora. se partindo ao meio, sem nunca ter deixado as docas. seu casco cai, atracado no cais do porto, desgastado em ferrugem pelo tempo, agora sangra em pó de ferro e se desfaz em finas partículas que tingem o oceano. o oceano que costumava ser azul, agora é vermelho. meu dever seria afundar com ele, deveria me jogar ao mar para submergirmos, mas creio que não valha a pena tamanho sacrifício por esse gigante que nem chegou a navegar. navegaríamos juntos. afundaríamos juntos. observo seu inevitável fim. aceno com a mão direita enquanto vejo lentamente o monstro de aço por mim construído, pelo tempo destruído, afundar na imensidão e no esquecimento. aceno e olho a cena. sei que não há nada mais para fazer agora, com a mão atada que diz adeus para a embarcação. a embarcação ancorada também não pode fazer nada para evitar seu destino. mãos metálicas ancoradas. aceno com saudade do que nunca aconteceu. o champagne estragado, nunca usado em sua viagem inaugural, perd...

cabide vazio.

as traças não estão lá deixam apenas a poeira do que consumiram acúmulos do suéter velho pó sobre pó prova a inexistência das pobres traças que só têm a lã verde para consumir o verde mofado do não uso morfinismo entrelaçado entre os fios auto-consumo o vício pó o buraco na gola buraco negro buraco verde-musgo envelhecido buraco traiçoeiro tragando as traças as traças não estão lá os buracos sim estão as traças inexistentes sobreviverão? o verde, o suéter e o mofo não

movimento respiratório.

Essa cidade, repleta de ladeiras... A falta de espaços planos... Rouba-me o fôlego. Ainda mais em dias quentes, com todo o gás tóxico exalado por escapamentos mal regulados de avenidas onde o tráfego é tão intenso às seis que é mais fácil chegar em casa andando. Mas o andar implica em escalar, e escalar... Ah, como me cansa! São tantas as subidas... São tão íngremes... Eu poderia me recostar em qualquer canto nesse fim de mundo, e apenas ficar rindo da cara dos transeuntes ao passarem ofegantes por mim. Semblante de exaustão, fraqueza nas pernas, falta de oxigenação cerebral, me falta ar nos pulmões... Perna esquerda, perna direita, fraqueza em ambas, bamboleio... Visão ofuscada focando o destino ao longe, o cume, o céu, minha salvação... Meu Deus, como é difícil sair desse buraco! É inútil clamar aos céus, eu sei, não me adianta em nada agora, no meio dessa depressão tão profunda, quem sabe, absoluta. E falo de acidentes geográficos, pois não consigo pensar em psicologia ou espiritual...